terça-feira, maio 01, 2007

Henrique Fialho sobre a Big Ode #1, no Blog Insónia

BIG ODE #1


Revista Big Ode

O número 1 da revista Big Ode, de Março passado, é francamente melhor que o número anterior. O formato mudou para um A5 mais confortável que o algo desproporcional A3 do número 0, o que talvez esteja relacionado com o tipo de conteúdos presentes nos diferentes números e com uma vontade, configuradora de uma atitude, de não estancar num modelo que torne tudo mais previsível. A singularidade de um projecto pode também ser consolidada nas diferentes formas que o mesmo assuma, não sendo a repetição, por si só, garantia de identidade. A relação que neste número a palavra estabelece com a imagem é muito mais eficaz, permitindo a ambas uma respiração que escapava no passado. Em nada uma atropela a outra. Antes pelo contrário, erige-se tal relação a partir de um diálogo construtivo, facilitador da leitura quer no caso da palavra escrita quer no caso da imagem. Há, igualmente, uma inflação da qualidade nos conteúdos, destacando-se as entrevistas ao uruguaio Clemente Padín (n. 1939) e ao português César Figueiredo (n. 1954). Os apaixonados pela denominada poesia visual reconhecerão em Padín um dos seus mais conceituados praticantes, com uma obra de intervenção marcadamente política iniciada na década de 1960. Entrevistado por Rodrigo Miragaia, director da Big Ode, o multifacetado artista é peremptório na distinção que faz entre a poesia mais tradicional e as suas alternativas experimentais: «Lo visual o lo sonoro pueden acceder a regiones más profundas e indescifrables del espíritu. Lo que a un autor le cuesta cientos de palabras para expresar un sentimiento o una emoción, al poeta visual le es suficiente con apenas una palabra (o dos) dispuestas en el espacio de determinada manera». Talvez por isso a entrevista a César Figueiredo, por Maria João Lopes Fernandes, resulte tão elíptica. Mas vale a pena conhecer melhor o trabalho e, como bem refere a Maria João na nota introdutória, «a atitude artística humilde e generosa» deste autor (?), criador (?), experimentador (!), cujo primeiro contacto me foi possibilitado através da Antologia da Poesia Experimental Portuguesa, Anos 60 – Anos 80 (Angelus Novus, 2004), organizada por Carlos Mendes de Sousa e Eunice Ribeiro. Pelo caminho das páginas ficam reproduções de alguns dos seus projectos nas worm produtions, tais como uns singulares microlivros resultantes de processos criativos assaz originais. César Figueiredo é também autor dos weblogs holeart/arthole, Art&Tal, by the way e This&That. Colabora no weblog Do segredo das Artes. Além das entrevistas, podem encontrar-se neste número reproduções de alguns cadernos de desenho de Maria João Lopes Fernandes, fotografia de António Salvador, pequenos contos de Fernando Aguiar, poesia gráfica de Gonçalo Cabaça, trabalhos do cubano Artémio Iglesias e do chileno Leo Lobos, entre outros. Atenção às palavras pluma deste último, interessantíssimo trabalho de síntese onde se conjuga o epigrama com o desenho. Termino com um dos seis poemas de Tiago Gomes reunidos neste número:

JARDIM DE LISBOA

É domingo à noite
e os rapazes vão recolher aos quartéis
soltando piropos ao passarem pelas miúdas
como se o amor fosse inalcançável agora.

É segunda-feira e os estudantes
foram ver os velhos no jardim
os ventres oferecidos das raparigas
sentadas no degrau, esperando o abraço.

Passa no céu um barco sobre ondas douradas
Por este jardim perverso.

5 comentários:

art&tal disse...

que coisa simpatica

...

tenho que trazer o homem cá casa para cha e bolos

mas bIg OdE....

o 2 bem diferente

Digo Perigo disse...

Talvez em breve tenhamos um novo colaborador.
O 2 muito fooora!

etanol disse...

ò César, ele gosta mais de cerveja e tremoços!
Maria João

Digo Perigo disse...

Tenho a certeza que "chá e bolos" é uma metáfora

merdinhas disse...

Gosto de ver a referência a César por aqui...
como costumo dizer,
link, link you never know...
acho que se tornou o meu lema.